Organização Internacional para as Migrações (Amnesty International) na terça-feira alertou que a onda de fugas e libertações de complexos de fraudes online no Camboja criou uma crise humanitária, deixando milhares de pessoas presas nas ruas sem apoio do Estado.
“Os movimentos em massa de fuga dos complexos de fraude criaram uma crise humanitária nas ruas, mas estão sendo ignorados pelo governo do Camboja,” afirmou Montse Ferrer, diretora de pesquisa regional da Amnesty International. Ela descreveu a situação como um cenário de caos e sofrimento, onde “milhares de vítimas traumatizadas estão tentando se virar sem qualquer suporte das autoridades.”
Ferrer chamou isso de uma “crise internacional que ocorre no território do Camboja”, acrescentando que os pesquisadores da organização encontraram pessoas da Ásia, África, Europa e Américas que “urgentemente precisam de assistência consular para retornar ao seu país de origem com segurança.”
Uma fazenda de fraudes online no Camboja## Complexos de fraude de criptomoedas no Camboja
O Camboja emergiu como um grande centro de atividades de fraudes online em escala industrial, incluindo esquemas de investimento fraudulentos de “criação de porcos”, nos quais criptomoedas são frequentemente usadas como ferramenta para enganar as vítimas.
Organizações de direitos humanos afirmam que os trabalhadores nesses complexos frequentemente são traficados de outros países, têm seus passaportes confiscados e são forçados a trabalhar sob ameaça de violência por redes criminosas, que geram receitas ilegais de bilhões de dólares.
Segundo a Amnesty International, entrevistas mostram um cenário de caos e perigo para aqueles que deixam esses locais sem passaporte, dinheiro, assistência médica ou rotas de fuga seguras. Todos os entrevistados escaparam ou foram libertados nas últimas seis semanas, incluindo pelo menos 11 pessoas apenas na semana passada.
Sobreviventes descrevem abusos graves e comuns dentro dos complexos. Alguns relataram abusos sexuais por parte dos gerentes, incluindo duas mulheres grávidas. Outros relataram punições cruéis, incluindo um caso de um homem que teve um dedo amputado.
A organização afirma que os depoimentos das vítimas coincidem com evidências de mais de 25 vídeos geolocalizados que a organização conseguiu coletar ao longo do mês, mostrando várias saídas dos complexos de fraude. Muitos desses indivíduos estão presos em Phnom Penh e precisam urgentemente de alimentos, alojamento e assistência médica.
As pessoas entrevistadas vêm de diversos países, como Brasil, Indonésia, Myanmar, Nigéria, Serra Leoa, Libéria, Uganda, Quênia, Bangladesh, Índia, Filipinas e Madagascar.
As vítimas relatam que há pouca presença policial ou militar durante e após suas fugas, levantando preocupações sobre o papel das autoridades do Camboja. Alguns afirmam que guardas os agrediram ao tentarem sair, enquanto outros descrevem que os gerentes permitiram que os presos escapassem, deixando-os livres para deixar a área.
Um sobrevivente contou que testemunhou um homem sendo morto por um gerente após tentar fugir. Outros dez disseram que a polícia frequentemente visita esses locais, até mesmo para retirar os corpos, mas sem tomar ações contra os responsáveis. Na prática, a polícia do Camboja parece mais cúmplice do que defensora da justiça.
Outra vítima, chamada Delilah, afirmou que muitas pessoas morreram na área onde ela foi mantida perto de Phnom Penh. “As pessoas estão doentes, mas eles não nos ajudam,” ela disse. “Tivemos que arrombar a porta para fugir, pois uma pessoa estava gravemente doente e não queríamos que morresse.”
Organizações anti-tráfico afirmam que o governo do Camboja está falhando (ou simplesmente não quer fazer nada) ao não identificar e proteger adequadamente as vítimas de tráfico, facilitando a exploração por grupos criminosos organizados.
O alerta da Amnesty International foi emitido em um contexto de aumento da fiscalização internacional contra atividades de fraudes no Sudeste Asiático. No início deste mês, Trần Chí, presidente do Prince Holding Group, foi preso no Camboja e extraditado para a China, após ser processado pelas autoridades americanas por conspiração de fraude online e lavagem de dinheiro relacionada a esquemas que supostamente roubaram bilhões de dólares de vítimas.
O Departamento de Justiça dos EUA designou essa rede como uma organização criminosa transnacional e busca confiscar mais de 127.000 BTC, avaliado em mais de 11 bilhões de dólares ao preço atual, supostamente ligados à operação fraudulenta.
Na Myanmar, forças de segurança apoiadas pela China também realizaram prisões de criminosos organizados e raids em centros de fraude conhecidos, incluindo o KK Park. Alguns líderes e figuras-chave desses grupos controlando a região foram levados para a China, e alguns receberam sentenças de morte.
No entanto, observadores e organizações de direitos humanos afirmam que muitas dessas operações de repressão são meramente simbólicas. Há relatos de que os operadores foram avisados com antecedência, deixando os complexos vazios no momento das operações, como ocorreu recentemente na Coreia do Sul.
A Amnesty pede ações urgentes do governo do Camboja e de outros países para fornecer assistência humanitária, restaurar documentos de identidade e facilitar o retorno dos sobreviventes.
“Todos que encontramos vivem em um medo extremo,” disse Ferrer. “Eles precisam urgentemente que seus governos intervenham e ofereçam ajuda.”