35 anos de trabalho, mais de 50 milhões de robôs vendidos, e por fim… falência. A história da iRobota e Roombas é o mais recente exemplo de como decisões regulatórias podem mudar o cenário de toda a indústria tecnológica. Quando na última domingo a empresa entrou com pedido de falência sob o capítulo 11, isso significou mais do que apenas a queda de um gigante — foi um sinal para todo o ecossistema de startups.
Como a FTC bloqueou uma megafusão de 1,7 bilhões de dólares
Tudo começou em outubro de 2023, quando a Amazon anunciou a aquisição da iRobota por 1,7 bilhões de dólares. O negócio planejado tinha como objetivo salvar a empresa, que perdia participação de mercado diante da crescente concorrência da China. No entanto, 18 meses depois, após uma investigação intensiva da FTC e reguladores europeus, a aquisição acabou por fracassar.
Colin Angle, fundador da iRobota, não esconde sua decepção com o fiscalização. Descrevendo a experiência como “profundamente frustrante”, destaca que as equipes passaram quase um ano e meio preparando mais de 100 mil documentos. Tanto a iRobot quanto a Amazon investiram recursos financeiros e humanos enormes para convencer os reguladores da transação. O esforço foi em vão.
Críticas à abordagem regulatória
Angle argumenta que a decisão dos reguladores foi injustificada. Na União Europeia, a iRobot tinha apenas 12% de participação de mercado — e ainda assim estava perdendo espaço. Seu principal concorrente, a Roborock, entrou no mercado há apenas três anos e rapidamente ganhava popularidade. Essa situação deveria indicar um mercado dinâmico, e não uma consolidação monopolista.
“Deveria levar três a quatro semanas de investigação” — acredita Angle. Em vez disso, o processo durou um ano e meio, impactando destrutivamente a capacidade operacional da empresa. Paradoxalmente — a falência foi exatamente o que os reguladores queriam evitar.
Angle aponta a postura dos funcionários da FTC, que colocam prints de transações bloqueadas na porta de seus escritórios “como troféus”. Para um empreendedor que construiu a empresa do zero, foi um choque. “Esta agência, cuja missão é proteger os interesses do consumidor, celebra cada bloqueio de fusão como uma vitória, enquanto M&A é o principal motor de criação de valor na economia da inovação” — diz com frustração.
Efeito dissuasor para startups
A falência da iRobota tem consequências profundas para todo o ecossistema de venture capital e startups. Empreendedores que planejavam sair por meio de aquisições agora precisam considerar o risco regulatório. Os investidores de venture capital podem mudar suas estratégias de investimento — menos aquisições significam transações avaliadas de forma diferente e potencialmente menor apetite por financiar novas empresas.
Angle não esconde que sua nova empreitada foi moldada pelas experiências com a iRobota. “Este precedente cria o risco de que isso se repita. Afeta a disposição de investir, a avaliação das transações e o ritmo de criação de novas empresas” — explica. Embora seja difícil quantificar quantas startups deixaram de surgir por causa desse sinal, fica claro que isso não ajudou a posição dos EUA na competição global de tecnologia.
Da primeira missão à Lua ao sucesso insano
A história da iRobota é uma lição brilhante de empreendedorismo. A empresa começou em um laboratório acadêmico como um projeto de um grupo de engenheiros que finalmente queriam ver os robôs prometidos. Um dos cofundadores, Rod Brooks, foi um pioneiro em tecnologia de IA na robótica.
O primeiro plano de negócios era ambicioso: “missão privada à Lua, vender direitos para um filme”. Não deu certo, mas a tecnologia foi usada na missão Mars Pathfinder — o nome de Angle está em Marte. A empresa construiu robôs para o exército dos EUA (PackBot para neutralizar explosivos no Afeganistão) e para o Japão (robôs entraram no reator de Fukushima).
Somente no 12º ano de existência, com um orçamento de apenas 15 mil dólares e um prazo de duas semanas, nasceu a Roomba. “Você tem 15 mil dólares. Duas semanas. Veja o que consegue fazer” — disse Angle à sua equipe.
Gatos insanos e Pepsi mudaram o jogo
Porém, a maior virada veio de um rumo totalmente inesperado. A Pepsi, sem autorização da iRobota, usou a Roomba em um comercial com Dave Chappelle. A cena era absurda — o robô come batatas chips e as calças do cara, uma mulher bonita aparece, e ele diz: “Meu aspirador comeu minhas calças.”
Esse único comercial vendeu 250 mil robôs em duas semanas. “Você tenta fazer o bem por tantos anos e sempre leva uma porrada, e às vezes acontece algo bom” — lembra com um sorriso.
Ainda mais insano foi o fato de gatos andando em Roombas terem se tornado um fenômeno cultural na internet. Milhares de bilhões de visualizações, memes incontáveis — não foi uma estratégia de marketing, mas um efeito orgânico da comunidade. Isso faz sentido comercial? Não. Mas garantiu à empresa bilhões de visualizações.
Lições para os empreendedores atuais
Angle tem conselhos específicos para quem constrói na indústria de robótica. Primeiro: entenda o mercado antes de se apaixonar pela tecnologia. “Robôs são tão empolgantes, tão sexy, que é fácil convencer a si mesmo de que está fazendo algo que vai mudar o mundo” — alerta.
Segundo: não construa um robô para o robô. Quando a Roomba apareceu pela primeira vez, as pessoas diziam: “Isso não é um robô. Um robô tem mãos, pernas e cabeça.” Enquanto isso, a Roomba custava na época 10 mil vezes menos do que um aspirador humanoide com visão.
Terceiro: entenda o que realmente o consumidor precisa. A iRobot passou anos apostando em navegação baseada em visão, ignorando a tecnologia lidar, que a Roborock e a Ecovacs implementaram anos antes. A estratégia era lógica — soluções a laser eram rápidas, mas superficiais. O problema? O mercado escolheu a solução rápida ao invés de esperar pela perfeição.
Novo capítulo
Angle não desiste do setor. Sua nova empresa é descrita como orientada ao consumidor e focada em robôs que podem apoiar a saúde e o bem-estar por meio da interação com as pessoas. “Percebi que a maioria das coisas que os robôs podem fazer requerem uma sofisticação emocional” — explica.
30 anos na indústria de robótica ensinaram a ele que a aventura nunca termina. Esperamos que desta vez o ambiente regulatório seja mais favorável à inovação e ao empreendedorismo, que — paradoxalmente — são o que a economia mais precisa.
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Falência da iRobota: como os reguladores arruinaram uma das maiores histórias de sucesso em robótica
35 anos de trabalho, mais de 50 milhões de robôs vendidos, e por fim… falência. A história da iRobota e Roombas é o mais recente exemplo de como decisões regulatórias podem mudar o cenário de toda a indústria tecnológica. Quando na última domingo a empresa entrou com pedido de falência sob o capítulo 11, isso significou mais do que apenas a queda de um gigante — foi um sinal para todo o ecossistema de startups.
Como a FTC bloqueou uma megafusão de 1,7 bilhões de dólares
Tudo começou em outubro de 2023, quando a Amazon anunciou a aquisição da iRobota por 1,7 bilhões de dólares. O negócio planejado tinha como objetivo salvar a empresa, que perdia participação de mercado diante da crescente concorrência da China. No entanto, 18 meses depois, após uma investigação intensiva da FTC e reguladores europeus, a aquisição acabou por fracassar.
Colin Angle, fundador da iRobota, não esconde sua decepção com o fiscalização. Descrevendo a experiência como “profundamente frustrante”, destaca que as equipes passaram quase um ano e meio preparando mais de 100 mil documentos. Tanto a iRobot quanto a Amazon investiram recursos financeiros e humanos enormes para convencer os reguladores da transação. O esforço foi em vão.
Críticas à abordagem regulatória
Angle argumenta que a decisão dos reguladores foi injustificada. Na União Europeia, a iRobot tinha apenas 12% de participação de mercado — e ainda assim estava perdendo espaço. Seu principal concorrente, a Roborock, entrou no mercado há apenas três anos e rapidamente ganhava popularidade. Essa situação deveria indicar um mercado dinâmico, e não uma consolidação monopolista.
“Deveria levar três a quatro semanas de investigação” — acredita Angle. Em vez disso, o processo durou um ano e meio, impactando destrutivamente a capacidade operacional da empresa. Paradoxalmente — a falência foi exatamente o que os reguladores queriam evitar.
Angle aponta a postura dos funcionários da FTC, que colocam prints de transações bloqueadas na porta de seus escritórios “como troféus”. Para um empreendedor que construiu a empresa do zero, foi um choque. “Esta agência, cuja missão é proteger os interesses do consumidor, celebra cada bloqueio de fusão como uma vitória, enquanto M&A é o principal motor de criação de valor na economia da inovação” — diz com frustração.
Efeito dissuasor para startups
A falência da iRobota tem consequências profundas para todo o ecossistema de venture capital e startups. Empreendedores que planejavam sair por meio de aquisições agora precisam considerar o risco regulatório. Os investidores de venture capital podem mudar suas estratégias de investimento — menos aquisições significam transações avaliadas de forma diferente e potencialmente menor apetite por financiar novas empresas.
Angle não esconde que sua nova empreitada foi moldada pelas experiências com a iRobota. “Este precedente cria o risco de que isso se repita. Afeta a disposição de investir, a avaliação das transações e o ritmo de criação de novas empresas” — explica. Embora seja difícil quantificar quantas startups deixaram de surgir por causa desse sinal, fica claro que isso não ajudou a posição dos EUA na competição global de tecnologia.
Da primeira missão à Lua ao sucesso insano
A história da iRobota é uma lição brilhante de empreendedorismo. A empresa começou em um laboratório acadêmico como um projeto de um grupo de engenheiros que finalmente queriam ver os robôs prometidos. Um dos cofundadores, Rod Brooks, foi um pioneiro em tecnologia de IA na robótica.
O primeiro plano de negócios era ambicioso: “missão privada à Lua, vender direitos para um filme”. Não deu certo, mas a tecnologia foi usada na missão Mars Pathfinder — o nome de Angle está em Marte. A empresa construiu robôs para o exército dos EUA (PackBot para neutralizar explosivos no Afeganistão) e para o Japão (robôs entraram no reator de Fukushima).
Somente no 12º ano de existência, com um orçamento de apenas 15 mil dólares e um prazo de duas semanas, nasceu a Roomba. “Você tem 15 mil dólares. Duas semanas. Veja o que consegue fazer” — disse Angle à sua equipe.
Gatos insanos e Pepsi mudaram o jogo
Porém, a maior virada veio de um rumo totalmente inesperado. A Pepsi, sem autorização da iRobota, usou a Roomba em um comercial com Dave Chappelle. A cena era absurda — o robô come batatas chips e as calças do cara, uma mulher bonita aparece, e ele diz: “Meu aspirador comeu minhas calças.”
Esse único comercial vendeu 250 mil robôs em duas semanas. “Você tenta fazer o bem por tantos anos e sempre leva uma porrada, e às vezes acontece algo bom” — lembra com um sorriso.
Ainda mais insano foi o fato de gatos andando em Roombas terem se tornado um fenômeno cultural na internet. Milhares de bilhões de visualizações, memes incontáveis — não foi uma estratégia de marketing, mas um efeito orgânico da comunidade. Isso faz sentido comercial? Não. Mas garantiu à empresa bilhões de visualizações.
Lições para os empreendedores atuais
Angle tem conselhos específicos para quem constrói na indústria de robótica. Primeiro: entenda o mercado antes de se apaixonar pela tecnologia. “Robôs são tão empolgantes, tão sexy, que é fácil convencer a si mesmo de que está fazendo algo que vai mudar o mundo” — alerta.
Segundo: não construa um robô para o robô. Quando a Roomba apareceu pela primeira vez, as pessoas diziam: “Isso não é um robô. Um robô tem mãos, pernas e cabeça.” Enquanto isso, a Roomba custava na época 10 mil vezes menos do que um aspirador humanoide com visão.
Terceiro: entenda o que realmente o consumidor precisa. A iRobot passou anos apostando em navegação baseada em visão, ignorando a tecnologia lidar, que a Roborock e a Ecovacs implementaram anos antes. A estratégia era lógica — soluções a laser eram rápidas, mas superficiais. O problema? O mercado escolheu a solução rápida ao invés de esperar pela perfeição.
Novo capítulo
Angle não desiste do setor. Sua nova empresa é descrita como orientada ao consumidor e focada em robôs que podem apoiar a saúde e o bem-estar por meio da interação com as pessoas. “Percebi que a maioria das coisas que os robôs podem fazer requerem uma sofisticação emocional” — explica.
30 anos na indústria de robótica ensinaram a ele que a aventura nunca termina. Esperamos que desta vez o ambiente regulatório seja mais favorável à inovação e ao empreendedorismo, que — paradoxalmente — são o que a economia mais precisa.