Tether – Uma jogada de poder incomum entre Wall Street, a Casa Branca e o mercado cripto

Autor: Chloe, ChainCatcher

Atualmente, Bitcoin (BTC) está ao preço de $90.79K. Paralelamente, a Tether está a realizar uma série de transações financeiras que surpreendem gestores de ativos e o público do mercado quanto à estratégia de negócios desta empresa.

Tether arrecada 15 bilhões de dólares de lucro este ano, com uma margem de lucro de 99%

Primeiramente, é importante entender que a Tether não é mais apenas uma emissora de stablecoin. Seu campo de atuação inclui: sistema de pagamentos em criptomoedas, serviços de empréstimo de ativos digitais, gestão de operações de mineração, investimento em IA, interfaces cérebro-máquina, gestão de plataformas de mídia, e recentemente até tentou adquirir o clube de futebol Juventus, da Itália.

Segundo a análise de Nate Geraci, presidente da The ETF Store: “Enquanto os legisladores americanos ainda discutem se devem permitir que stablecoins gerem rendimento, a realidade é que a Tether vai gerar 15 bilhões de dólares de lucro neste ano, com uma margem de lucro impressionante de 99%.” Este número levanta uma questão profunda: esse enorme volume de capital realmente cria valor para a comunidade cripto, ou é apenas uma ferramenta para que figuras de liderança privatizem ativos e controlem o poder?

Fusão com Rumble, separação de ativos da Peak Mining: Estratégia “mão esquerda entregando à mão direita”

Para entender melhor como a Tether opera, é necessário analisar a transação recente da sua subsidiária Northern Data.

A Northern Data anunciou a venda do departamento de mineração de Bitcoin (Peak Mining) por 200 milhões de dólares. O interessante é que as três empresas que adquiriram a Peak Mining são Highland Group Mining, Appalachian Energy e 2750418 Alberta ULC, todas controladas pelo cofundador Giancarlo Devasini e pelo CEO Paolo Ardoino, da Tether.

Não se trata de uma transação comum. Como a Tether detém cerca de 54% das ações da Northern Data e há uma ligação financeira entre as partes via um empréstimo de 610 milhões de euros, qualquer troca de ativos é uma transação relacionada (related-party transaction). No entanto, a Northern Data está listada no mercado secundário na Alemanha, com regulamentação mais flexível, o que não obriga a divulgação do comprador ou a documentação de transações relacionadas.

Porém, a responsabilidade global exige transparência. Poucas semanas após a conclusão da transação, através de registros empresariais nas Ilhas Virgens Britânicas, EUA e Canadá, o mercado descobriu a verdadeira identidade dos compradores.

O momento da transação também gera curiosidade: a Peak Mining foi vendida poucos dias antes do anúncio da aquisição da Northern Data pela plataforma Rumble, por 760 milhões de dólares. Além disso, a Tether possui quase 48% das ações da Rumble. Alguns especialistas acreditam que a Tether intencionalmente separou a operação de mineração (ou seja, Peak Mining - com alta volatilidade) para que a Northern Data se tornasse uma fornecedora de serviços de computação em nuvem de IA pura, ajudando a empresa a alcançar uma avaliação de mercado mais alta e reduzir riscos na fusão.

Durante todo esse processo, o empréstimo de 610 milhões de euros funciona como uma ferramenta de coordenação financeira. Segundo o plano, na aquisição pela Rumble, esse empréstimo será reestruturado: metade será paga pela Rumble à Tether em forma de ações, enquanto a outra metade será convertida em um novo empréstimo para a Rumble, garantido pelos ativos da Northern Data.

Essa estrutura financeira de múltiplos níveis criou um ecossistema de fluxo de capital interno entre a matriz, as empresas adquiridas e os negócios controlados pelos líderes, permitindo que os dirigentes transfiram ativos de mineração para seus nomes pessoais, ao mesmo tempo em que mantêm o controle geral.

Relações complexas entre Tether, Cantor Fitzgerald e a Casa Branca

Além das transações internas, a relação entre a Tether e o banco de investimento Wall Street Cantor Fitzgerald levanta questões maiores.

Howard Lutnick, CEO da Cantor, foi nomeado e confirmado como Secretário de Comércio dos EUA. Isso gerou preocupações no setor jurídico.

A ligação entre Tether e Lutnick começou em 2021, quando a Tether transferiu dezenas de bilhões de dólares em títulos do governo dos EUA para apoiar o USDT gerenciado pela Cantor. Essa movimentação visava aliviar suspeitas sobre a transparência das reservas e consolidar Lutnick como o maior garantidor da Tether no sistema financeiro tradicional.

Segundo o The Wall Street Journal (novembro passado), Lutnick participou diretamente das negociações para que a Cantor adquirisse cerca de 5% das ações da Tether, avaliado em 600 milhões de dólares. No entanto, após críticas da senadora Elizabeth Warren (que há tempos considera a Tether uma ferramenta de financiamento de atividades criminosas), e com Lutnick prestes a assumir o Ministério do Comércio, ele esclareceu que a Cantor possui “títulos conversíveis” e não ações diretas.

Porém, esses títulos conversíveis representam um direito de converter em ações no futuro – na essência, uma propriedade com efeito de atraso, com potencial de exercer controle real quando necessário.

Em uma audiência, Lutnick comprometeu-se a, ao assumir o cargo, exigir que os emissores de stablecoins passem por auditorias independentes mais rigorosas e fiquem sob supervisão das autoridades de aplicação da lei dos EUA. Ainda assim, o setor financeiro alerta que Lutnick liderará um ministério com grande poder sobre a indústria financeira, enquanto mantém interesses em uma empresa controversa.

Conclusão: Ecossistema de poder fechado

Através dessas movimentações, a Tether construiu um ecossistema de negócios fechado: desde a separação dos ativos da Peak Mining, a fusão com a Rumble, até a construção de relações profundas com Wall Street e a Casa Branca, cada decisão aparentemente independente faz parte de uma estrutura de poder mais ampla. Essa estrutura permite que a liderança privatize ativos essenciais, ao mesmo tempo em que aproxima a Tether do centro do poder nos EUA. Com um lucro de 15 bilhões de dólares, a Tether usa seu poder financeiro para moldar um quadro de poder mais amplo, e a questão de se essas ações servem ao interesse comum ou apenas aos grupos de poder internos ainda permanece sem uma resposta clara.

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