O processo de padronização regulatória para ativos digitais nos Estados Unidos aproxima-se de um momento crítico, mas surgiu um marco inesperado na trajetória legislativa. Enquanto a Câmara dos Representantes já preparou o Digital Asset Market Clarity Act, que define a supervisão de alguns tokens, o Senado encontra-se em negociações profundas sobre uma questão que parece técnica: se os utilizadores de stablecoins deveriam ter direito a receber retornos sobre as reservas de obrigações do tesouro.
A batalha pelos lucros financeiros dos tokens de pagamento
O núcleo da disputa entre os legisladores diz respeito à interpretação do termo “lucro". Stablecoins que mantêm reservas em títulos do tesouro de curto prazo poderiam, teoricamente, compartilhar retornos com os investidores através de juros diretos ou programas promocionais de recompensas oferecidos por entidades relacionadas. Os democratas veem essa prática como uma ameaça ao sistema bancário tradicional — se as stablecoins começarem a oferecer retornos próximos a 5%, enquanto os bancos tradicionais oferecem apenas 0,01% a 0,5% em contas correntes, os depositantes podem transferir em massa fundos para alternativas digitais.
Senadores do partido democrata argumentam que essa migração de capital poderia comprometer a capacidade das instituições financeiras locais de conceder empréstimos, especialmente em áreas rurais. Os republicanos, por sua vez, afirmam que bloquear esses retornos discrimina soluções inovadoras em favor de manter o status quo bancário.
Cenário de estresse avaliado em 6,6 trilhões de dólares
A discussão ganhou força após a revelação pelo Bank Policy Institute (BPI) de uma brecha na GENIUS Act, uma lei aprovada pelo Congresso ainda neste ano. A legislação proíbe os emissores de pagar juros diretamente, mas deixa uma brecha para bolsas e entidades de marketing que oferecem recompensas relacionadas aos ativos de reserva. Utilizando simulações de cenários de instituições federais, o BPI estimou que, com uma abordagem liberal em relação às remunerações, poderia ocorrer a transferência de até 6,6 trilhões de dólares em depósitos do sistema tradicional para o ecossistema de stablecoins.
É importante destacar que os analistas consideram esse número como um cenário extremo, e não uma previsão real. As premissas incorporadas ao modelo assumem um alto grau de substituibilidade entre depósitos tradicionais e dinheiro tokenizado, além de transferências rápidas on-chain sem os habituais atrasos de liquidação. Ainda assim, essa estimativa tornou-se um ponto de referência nas discussões no Senado, justificando uma posição firme dos democratas quanto à questão dos retornos.
Desafios de definição jurídica
O problema reside na definição precisa dos termos “lucro", “emissor" e “entidade relacionada". A GENIUS Act impõe aos emissores requisitos de manutenção de reservas completas e padrões de armazenamento, mas não especifica se retornos economicamente equivalentes a juros, distribuídos por entidades separadas, estão sujeitos à proibição. O setor bancário pressiona os congressistas para que esclareçam que qualquer retorno de ativos de reserva — independentemente do canal de distribuição — deve estar sujeito à proibição.
Por outro lado, representantes do setor de criptomoedas argumentam que tais restrições colocariam as stablecoins em uma posição de desvantagem competitiva frente às fintechs, que já oferecem programas de recompensas semelhantes. Apontam também para a prática na União Europeia e no Reino Unido, onde estão sendo criados quadros mais flexíveis para instrumentos de dinheiro tokenizado.
Outros obstáculos legislativos que bloqueiam a reforma
A questão dos lucros das stablecoins não é o único ponto não resolvido nas negociações. Os senadores do partido democrata apresentaram condições adicionais: regras éticas que limitem a possibilidade de funcionários públicos e seus familiares emitirem ou obterem benefícios de ativos digitais, a exigência de uma composição completa de comissários na SEC e na CFTC antes da transferência de novas competências regulatórias, e definições mais precisas de descentralização que impeçam a evasão de obrigações.
O escopo dessas demandas adicionais reduziu significativamente o espaço para negociações. Funcionários do Senado indicam que uma votação antes do recesso parlamentar é pouco provável, o que pode adiar a decisão final para 2026. Nesse período, a lacuna regulatória permaneceria aberta, e a SEC e a CFTC continuariam a moldar o mercado de ativos digitais por meio de ações de fiscalização e interpretações.
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Senadores dos EUA em impasse: Quem vai controlar os rendimentos dos stablecoins?
O processo de padronização regulatória para ativos digitais nos Estados Unidos aproxima-se de um momento crítico, mas surgiu um marco inesperado na trajetória legislativa. Enquanto a Câmara dos Representantes já preparou o Digital Asset Market Clarity Act, que define a supervisão de alguns tokens, o Senado encontra-se em negociações profundas sobre uma questão que parece técnica: se os utilizadores de stablecoins deveriam ter direito a receber retornos sobre as reservas de obrigações do tesouro.
A batalha pelos lucros financeiros dos tokens de pagamento
O núcleo da disputa entre os legisladores diz respeito à interpretação do termo “lucro". Stablecoins que mantêm reservas em títulos do tesouro de curto prazo poderiam, teoricamente, compartilhar retornos com os investidores através de juros diretos ou programas promocionais de recompensas oferecidos por entidades relacionadas. Os democratas veem essa prática como uma ameaça ao sistema bancário tradicional — se as stablecoins começarem a oferecer retornos próximos a 5%, enquanto os bancos tradicionais oferecem apenas 0,01% a 0,5% em contas correntes, os depositantes podem transferir em massa fundos para alternativas digitais.
Senadores do partido democrata argumentam que essa migração de capital poderia comprometer a capacidade das instituições financeiras locais de conceder empréstimos, especialmente em áreas rurais. Os republicanos, por sua vez, afirmam que bloquear esses retornos discrimina soluções inovadoras em favor de manter o status quo bancário.
Cenário de estresse avaliado em 6,6 trilhões de dólares
A discussão ganhou força após a revelação pelo Bank Policy Institute (BPI) de uma brecha na GENIUS Act, uma lei aprovada pelo Congresso ainda neste ano. A legislação proíbe os emissores de pagar juros diretamente, mas deixa uma brecha para bolsas e entidades de marketing que oferecem recompensas relacionadas aos ativos de reserva. Utilizando simulações de cenários de instituições federais, o BPI estimou que, com uma abordagem liberal em relação às remunerações, poderia ocorrer a transferência de até 6,6 trilhões de dólares em depósitos do sistema tradicional para o ecossistema de stablecoins.
É importante destacar que os analistas consideram esse número como um cenário extremo, e não uma previsão real. As premissas incorporadas ao modelo assumem um alto grau de substituibilidade entre depósitos tradicionais e dinheiro tokenizado, além de transferências rápidas on-chain sem os habituais atrasos de liquidação. Ainda assim, essa estimativa tornou-se um ponto de referência nas discussões no Senado, justificando uma posição firme dos democratas quanto à questão dos retornos.
Desafios de definição jurídica
O problema reside na definição precisa dos termos “lucro", “emissor" e “entidade relacionada". A GENIUS Act impõe aos emissores requisitos de manutenção de reservas completas e padrões de armazenamento, mas não especifica se retornos economicamente equivalentes a juros, distribuídos por entidades separadas, estão sujeitos à proibição. O setor bancário pressiona os congressistas para que esclareçam que qualquer retorno de ativos de reserva — independentemente do canal de distribuição — deve estar sujeito à proibição.
Por outro lado, representantes do setor de criptomoedas argumentam que tais restrições colocariam as stablecoins em uma posição de desvantagem competitiva frente às fintechs, que já oferecem programas de recompensas semelhantes. Apontam também para a prática na União Europeia e no Reino Unido, onde estão sendo criados quadros mais flexíveis para instrumentos de dinheiro tokenizado.
Outros obstáculos legislativos que bloqueiam a reforma
A questão dos lucros das stablecoins não é o único ponto não resolvido nas negociações. Os senadores do partido democrata apresentaram condições adicionais: regras éticas que limitem a possibilidade de funcionários públicos e seus familiares emitirem ou obterem benefícios de ativos digitais, a exigência de uma composição completa de comissários na SEC e na CFTC antes da transferência de novas competências regulatórias, e definições mais precisas de descentralização que impeçam a evasão de obrigações.
O escopo dessas demandas adicionais reduziu significativamente o espaço para negociações. Funcionários do Senado indicam que uma votação antes do recesso parlamentar é pouco provável, o que pode adiar a decisão final para 2026. Nesse período, a lacuna regulatória permaneceria aberta, e a SEC e a CFTC continuariam a moldar o mercado de ativos digitais por meio de ações de fiscalização e interpretações.