A teoria financeira académica distingue dois tipos de risco: sistemático e idiossincrático.
Poderemos discutir a teoria moderna de carteiras noutra ocasião, mas o enquadramento sistemático-idiossincrático é particularmente útil para compreender os diferentes tipos de drawdowns – a descida percentual do valor de um investimento do máximo ao mínimo – e para orientar a análise das oportunidades enquanto investidores.
Desde que lemos o nosso primeiro livro sobre investimento em valor, aprendemos a beneficiar do desânimo do Mr. Market quando as ações estão em queda. Se mantivermos a serenidade enquanto ele a perde, demonstramos a nossa resiliência como investidores em valor estoicos.
No entanto, nem todos os drawdowns são iguais. Alguns resultam do mercado (sistemáticos), outros de fatores próprios da empresa (idiossincráticos). Antes de tomar a decisão de investir, é essencial identificar o tipo de situação em causa.

Gerado por Gemini
A recente correção nas ações de software devido a receios relacionados com a IA ilustra bem este ponto. Analisemos 20 anos de histórico de drawdowns entre a FactSet (FDS, a azul) e o S&P 500 (medido pelo ETF SPY, a laranja).

Fonte: Koyfin, a 12 de fevereiro de 2026. Os leitores de Flyover Stocks podem aceder a uma oferta especial da Koyfin ao clicar aqui!
O drawdown da FactSet durante a crise financeira teve sobretudo origem sistemática. Em 2008/09, todo o mercado estava apreensivo quanto à robustez do sistema financeiro, e a FactSet não ficou imune a essas preocupações, sobretudo por fornecer produtos a profissionais do setor financeiro.
Nesse contexto, a queda da ação estava muito menos relacionada com a vantagem competitiva da FactSet e mais com a dúvida sobre a relevância dessa vantagem caso o sistema financeiro colapsasse.
O drawdown de 2025/26 da FactSet representa o caso oposto. Aqui, as preocupações centram-se quase exclusivamente na vantagem competitiva e no potencial de crescimento da FactSet, bem como no impacto do avanço acelerado da IA sobre o poder de fixação de preços da indústria de software.
Num drawdown sistemático, é mais plausível tirar partido de uma arbitragem temporal. A experiência histórica demonstra que os mercados tendem a recuperar e uma empresa com uma vantagem competitiva sólida pode até sair reforçada, pelo que, se tiver capacidade e disposição para esperar enquanto os outros entram em pânico, pode transformar essa resiliência numa vantagem comportamental.

Foto de Walker Fenton em Unsplash
Num drawdown idiossincrático, porém, o mercado está a sinalizar que algo está errado no próprio negócio. Em particular, sugere que o valor terminal do negócio se tornou mais incerto.
Para aproveitar um drawdown idiossincrático, é indispensável possuir uma vantagem analítica, além da vantagem comportamental.
O sucesso exige uma visão mais precisa do que será a empresa daqui a dez anos, em comparação com as expectativas atualmente refletidas no preço de mercado.
Mesmo conhecendo bem a empresa, tal não é trivial. As ações raramente caem 50% face ao mercado sem razão. Muitos antigos acionistas – até investidores reconhecidos pela sua investigação rigorosa – terão capitulado para que tal acontecesse.
Se pretende assumir uma posição compradora durante um drawdown idiossincrático, precisa de justificar porque é que esses investidores, normalmente bem informados e criteriosos, estavam errados ao vender e porque a sua análise está correta.
A fronteira entre convicção e arrogância é ténue.
Quer detenha uma ação em drawdown, quer esteja a ponderar iniciar uma posição, é essencial compreender que tipo de aposta está a realizar.
Os drawdowns idiossincráticos podem atrair investidores em valor para procurar oportunidades. Antes de avançar, assegure-se de que não está a aplicar uma resposta comportamental simplista a um problema analítico complexo.
Mantenha-se paciente e focado.
Todd





