Futuros de açúcar registaram uma forte recuperação na terça-feira, com o contrato de março de Nova Iorque (SBH26) a subir 2,59% e o contrato de açúcar branco de Londres (SWH26) a disparar 3,06%. A força inesperada surgiu de uma combinação de atividade de cobertura de posições vendidas—traders a fecharem apostas baixistas—ativada pela fraqueza da moeda no índice do dólar americano (DXY00). Este rebound técnico fornece um contexto importante para compreender as pressões baixistas mais amplas que têm definido os mercados de açúcar nos últimos meses.
Recuperação Técnica Impulsionada pela Dinâmica Cambial
Os mecanismos por trás do rally de terça-feira revelam como os movimentos nos mercados financeiros repercutem nos futuros de commodities. Quando o dólar enfraquece, traders com posições vendidas em commodities denominadas em dólares, como o açúcar, enfrentam perdas. Isso força ações de cobertura—o encerramento de posições baixistas—que, mecanicamente, eleva os preços independentemente dos fundamentos de oferta e procura subjacentes. O rebound de terça-feira, embora notável, representa esta correção técnica e não uma reversão das pressões fundamentais que pressionam os mercados globais de açúcar.
O rally ocorreu num contexto de preocupações constantes com a oferta. Poucas horas antes, na segunda-feira, o açúcar de Nova Iorque atingiu uma mínima de 2,5 meses, enquanto os futuros de Londres atingiram mínimos de 5 anos. Essas quedas refletiram evidências crescentes de que a produção global de açúcar continua a superar o consumo, estabelecendo um ambiente estrutural baixista que uma simples cobertura de posições vendidas num dia não consegue resolver.
Produção Recorde do Brasil Redefine Expectativas de Mercado
O Brasil, responsável por aproximadamente um quarto da oferta global de açúcar, apresenta o fator mais imediato na dinâmica de oferta. A produção de açúcar do Brasil para 2025-26 atingiu 40,222 milhões de toneladas métricas (MMT) até ao final do ano, representando um aumento de 0,9% em relação ao ano anterior. Mais significativamente, a alocação de cana para produção de açúcar subiu para 50,82% em 2025-26, face a 48,16% em 2024-25, sinalizando confiança dos produtores na rentabilidade. A agência de produção brasileira Conab projeta uma produção total de 45 MMT para a temporada de 2025-26.
No entanto, as projeções para 2026-27 sugerem que a trajetória de produção poderá inverter-se. A consultora Safras & Mercado prevê que a produção do Brasil em 2026-27 diminuirá 3,91% em relação ao ano anterior, para 41,8 MMT, com as exportações a cair 11%, para 30 MMT. Este recuo reflete expectativas de que preços baixos acabarão por desencorajar a expansão da produção, criando um mecanismo de reequilíbrio para as temporadas seguintes.
Crescimento da Produção na Índia Complica Dinâmica de Exportação
A produção de açúcar na Índia para 2025-26, até meados de janeiro, atingiu 15,9 MMT, representando um aumento de 22% em relação ao ano anterior. A Associação das Usinas de Açúcar da Índia (ISMA) mantém uma previsão de temporada completa de 31 MMT, um aumento de 18,8% em relação ao ano anterior. Este crescimento contrasta fortemente com a dinâmica de 2024-25 e reflete condições favoráveis de monções e expansão da área plantada de açúcar.
A variável crítica para os preços globais centra-se na política de exportação da Índia. Após implementar quotas em 2022-23 para proteger o abastecimento interno, o ministério de alimentos indiano autorizou posteriormente 1,5 MMT de exportações para 2025-26. As discussões sobre permissões adicionais de exportação criam a perspetiva de entradas ainda maiores de oferta nos mercados globais, potencialmente agravando a narrativa de excesso de oferta. A Índia é o segundo maior produtor mundial de açúcar, o que significa que as suas decisões políticas têm uma influência desproporcional no equilíbrio do mercado internacional.
Expansão da Produção na Tailândia Aumenta Pressão de Oferta Global
A Tailândia, terceiro maior produtor e segundo maior exportador mundial, contribuiu com preocupações adicionais de aumento de oferta. A Thai Sugar Millers Corp projetou que a produção de 2025-26 aumentará 5% em relação ao ano anterior, para 10,5 MMT. Embora modesto em termos absolutos face ao Brasil e à Índia, o fato de a Tailândia ser um importante exportador significa que a sua produção influencia diretamente os volumes comerciais globais.
O Serviço de Agricultura Estrangeira do USDA previu uma produção tailandesa de 10,25 MMT para 2025-26, um aumento de 2% em relação ao ano anterior, reforçando a visão consensual de expansão contínua.
Vários Previsores Apontam para Surplus Recorde Global
A divergência entre os previsores quanto à magnitude do excedente evidencia a complexidade do equilíbrio global de açúcar. A Organização Internacional do Açúcar projetou um excedente de 1,625 MMT para 2025-26, em forte contraste com as estimativas de outras instituições principais:
Covrig Analytics elevou a sua estimativa de excedente para 4,7 MMT em dezembro, de 4,1 MMT em outubro
StoneX projetou um excedente de 2,9 MMT
Green Pool Commodity Specialists previu 2,74 MMT para 2025-26 e 156.000 MT para 2026-27
Czarnikow, uma das maiores traders de açúcar, apresentou a previsão mais agressiva, estimando um excedente de 8,7 MMT, mais 1,2 MMT do que as estimativas anteriores
O USDA apresentou a perspetiva mais abrangente, prevendo uma produção global de açúcar de 189,318 MMT para 2025-26 (aumento de 4,6% em relação ao ano anterior), consumo humano de 177,921 MMT (aumento de 1,4%) e stocks finais de 41,188 MMT (queda de 2,9%). A produção da Índia foi projetada a subir 25%, para 35,25 MMT, enquanto a do Brasil aumentaria 2,3%, atingindo um recorde de 44,7 MMT.
A variação nas estimativas de excedente—que vão de 1,625 MMT a 8,7 MMT—reflete diferenças nas metodologias e nos pressupostos de timing. Contudo, todos os previsores concordam na direção: os stocks globais de açúcar irão superar o consumo em 2025-26.
Perspetivas Futuras: Cobertura de Posições Vendidas versus Excesso Estrutural
O rally de cobertura de posições vendidas de terça-feira proporcionou um alívio técnico temporário, mas não resolve o desequilíbrio fundamental subjacente. O mercado global de açúcar enfrenta uma situação de excesso estrutural impulsionada pela produção recorde do Brasil, crescimento da produção indiana, expansão das colheitas na Tailândia e possíveis mudanças políticas relativas às exportações indianas. Embora preços baixos possam eventualmente limitar a expansão da produção em 2026-27—como antecipam previsores como Covrig e Safras & Mercado—a realidade de curto prazo permanece baixista para os preços.
O movimento de cobertura de posições vendidas observado na terça-feira ilustra como fatores técnicos podem criar volatilidade dentro de uma tendência predominantemente baixista. Movimentos cambiais, fluxos de posições e dinâmicas de mercado financeiro de curto prazo acrescentam ruído à narrativa fundamental. No entanto, com múltiplos grandes produtores a expandir as ofertas e estimativas de excedente global variando entre 1,6 e 8,7 MMT, o rebound técnico parece mais uma movimentação de contra-tendência dentro de uma trajetória de baixa de longo prazo do que o início de uma recuperação sustentada.
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A cobertura curta impulsiona o rally do açúcar à medida que a depreciação do dólar desbloqueia o momentum técnico
Futuros de açúcar registaram uma forte recuperação na terça-feira, com o contrato de março de Nova Iorque (SBH26) a subir 2,59% e o contrato de açúcar branco de Londres (SWH26) a disparar 3,06%. A força inesperada surgiu de uma combinação de atividade de cobertura de posições vendidas—traders a fecharem apostas baixistas—ativada pela fraqueza da moeda no índice do dólar americano (DXY00). Este rebound técnico fornece um contexto importante para compreender as pressões baixistas mais amplas que têm definido os mercados de açúcar nos últimos meses.
Recuperação Técnica Impulsionada pela Dinâmica Cambial
Os mecanismos por trás do rally de terça-feira revelam como os movimentos nos mercados financeiros repercutem nos futuros de commodities. Quando o dólar enfraquece, traders com posições vendidas em commodities denominadas em dólares, como o açúcar, enfrentam perdas. Isso força ações de cobertura—o encerramento de posições baixistas—que, mecanicamente, eleva os preços independentemente dos fundamentos de oferta e procura subjacentes. O rebound de terça-feira, embora notável, representa esta correção técnica e não uma reversão das pressões fundamentais que pressionam os mercados globais de açúcar.
O rally ocorreu num contexto de preocupações constantes com a oferta. Poucas horas antes, na segunda-feira, o açúcar de Nova Iorque atingiu uma mínima de 2,5 meses, enquanto os futuros de Londres atingiram mínimos de 5 anos. Essas quedas refletiram evidências crescentes de que a produção global de açúcar continua a superar o consumo, estabelecendo um ambiente estrutural baixista que uma simples cobertura de posições vendidas num dia não consegue resolver.
Produção Recorde do Brasil Redefine Expectativas de Mercado
O Brasil, responsável por aproximadamente um quarto da oferta global de açúcar, apresenta o fator mais imediato na dinâmica de oferta. A produção de açúcar do Brasil para 2025-26 atingiu 40,222 milhões de toneladas métricas (MMT) até ao final do ano, representando um aumento de 0,9% em relação ao ano anterior. Mais significativamente, a alocação de cana para produção de açúcar subiu para 50,82% em 2025-26, face a 48,16% em 2024-25, sinalizando confiança dos produtores na rentabilidade. A agência de produção brasileira Conab projeta uma produção total de 45 MMT para a temporada de 2025-26.
No entanto, as projeções para 2026-27 sugerem que a trajetória de produção poderá inverter-se. A consultora Safras & Mercado prevê que a produção do Brasil em 2026-27 diminuirá 3,91% em relação ao ano anterior, para 41,8 MMT, com as exportações a cair 11%, para 30 MMT. Este recuo reflete expectativas de que preços baixos acabarão por desencorajar a expansão da produção, criando um mecanismo de reequilíbrio para as temporadas seguintes.
Crescimento da Produção na Índia Complica Dinâmica de Exportação
A produção de açúcar na Índia para 2025-26, até meados de janeiro, atingiu 15,9 MMT, representando um aumento de 22% em relação ao ano anterior. A Associação das Usinas de Açúcar da Índia (ISMA) mantém uma previsão de temporada completa de 31 MMT, um aumento de 18,8% em relação ao ano anterior. Este crescimento contrasta fortemente com a dinâmica de 2024-25 e reflete condições favoráveis de monções e expansão da área plantada de açúcar.
A variável crítica para os preços globais centra-se na política de exportação da Índia. Após implementar quotas em 2022-23 para proteger o abastecimento interno, o ministério de alimentos indiano autorizou posteriormente 1,5 MMT de exportações para 2025-26. As discussões sobre permissões adicionais de exportação criam a perspetiva de entradas ainda maiores de oferta nos mercados globais, potencialmente agravando a narrativa de excesso de oferta. A Índia é o segundo maior produtor mundial de açúcar, o que significa que as suas decisões políticas têm uma influência desproporcional no equilíbrio do mercado internacional.
Expansão da Produção na Tailândia Aumenta Pressão de Oferta Global
A Tailândia, terceiro maior produtor e segundo maior exportador mundial, contribuiu com preocupações adicionais de aumento de oferta. A Thai Sugar Millers Corp projetou que a produção de 2025-26 aumentará 5% em relação ao ano anterior, para 10,5 MMT. Embora modesto em termos absolutos face ao Brasil e à Índia, o fato de a Tailândia ser um importante exportador significa que a sua produção influencia diretamente os volumes comerciais globais.
O Serviço de Agricultura Estrangeira do USDA previu uma produção tailandesa de 10,25 MMT para 2025-26, um aumento de 2% em relação ao ano anterior, reforçando a visão consensual de expansão contínua.
Vários Previsores Apontam para Surplus Recorde Global
A divergência entre os previsores quanto à magnitude do excedente evidencia a complexidade do equilíbrio global de açúcar. A Organização Internacional do Açúcar projetou um excedente de 1,625 MMT para 2025-26, em forte contraste com as estimativas de outras instituições principais:
O USDA apresentou a perspetiva mais abrangente, prevendo uma produção global de açúcar de 189,318 MMT para 2025-26 (aumento de 4,6% em relação ao ano anterior), consumo humano de 177,921 MMT (aumento de 1,4%) e stocks finais de 41,188 MMT (queda de 2,9%). A produção da Índia foi projetada a subir 25%, para 35,25 MMT, enquanto a do Brasil aumentaria 2,3%, atingindo um recorde de 44,7 MMT.
A variação nas estimativas de excedente—que vão de 1,625 MMT a 8,7 MMT—reflete diferenças nas metodologias e nos pressupostos de timing. Contudo, todos os previsores concordam na direção: os stocks globais de açúcar irão superar o consumo em 2025-26.
Perspetivas Futuras: Cobertura de Posições Vendidas versus Excesso Estrutural
O rally de cobertura de posições vendidas de terça-feira proporcionou um alívio técnico temporário, mas não resolve o desequilíbrio fundamental subjacente. O mercado global de açúcar enfrenta uma situação de excesso estrutural impulsionada pela produção recorde do Brasil, crescimento da produção indiana, expansão das colheitas na Tailândia e possíveis mudanças políticas relativas às exportações indianas. Embora preços baixos possam eventualmente limitar a expansão da produção em 2026-27—como antecipam previsores como Covrig e Safras & Mercado—a realidade de curto prazo permanece baixista para os preços.
O movimento de cobertura de posições vendidas observado na terça-feira ilustra como fatores técnicos podem criar volatilidade dentro de uma tendência predominantemente baixista. Movimentos cambiais, fluxos de posições e dinâmicas de mercado financeiro de curto prazo acrescentam ruído à narrativa fundamental. No entanto, com múltiplos grandes produtores a expandir as ofertas e estimativas de excedente global variando entre 1,6 e 8,7 MMT, o rebound técnico parece mais uma movimentação de contra-tendência dentro de uma trajetória de baixa de longo prazo do que o início de uma recuperação sustentada.