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Recentemente, vi um caso de financiamento bastante interessante. Um projeto de tokenização de contas a receber de cartões de crédito levantou 2 bilhões de dólares, com a Mars Capital apoiando. Ao mesmo tempo, lançou o produto flagship GemStone, focado na tokenização de direitos de recebimento de cartões de crédito no mercado brasileiro. Essa abordagem parece inovadora à primeira vista, mas, ao pensar bem, a lógica é bastante sólida.
O sistema bancário na América Latina geralmente apresenta baixa eficiência, dificultando o financiamento de pequenas e médias empresas, um problema antigo. Mas esse projeto pensou em uma abordagem diferente: empacotar os direitos futuros de recebimento de cartões de crédito das empresas em tokens na blockchain. Os investidores podem comprar esses tokens para obter retorno, enquanto as empresas recebem imediatamente o dinheiro em caixa. Em resumo, uma aplicação de RWA (ativos físicos na blockchain) — contas a receber do mundo real transformadas em ativos digitais negociáveis.
Por que escolher o Brasil? Essa etapa é crucial. O Brasil é a maior economia da América Latina, com alta penetração de cartões de crédito, e o mercado de contas a receber está bem estabelecido. Mais importante ainda, a aceitação de criptomoedas no Brasil está entre as mais altas do mundo. A moeda local é bastante volátil, e as pessoas já estão acostumadas a usar stablecoins para preservar valor. Com essa base, avançar na tokenização de crédito encontra menos resistência. A escolha do ponto de entrada foi bastante inteligente.
E como serão utilizados esses 2 bilhões de dólares? Principalmente para construir uma infraestrutura de integração B2B. Em termos simples, conectar grandes processadores de pagamento, bancos e plataformas de e-commerce, unificando o fluxo de dados de contas a receber e o fluxo de fundos. Do ponto de vista técnico, não é complicado; o verdadeiro desafio está na expansão comercial e na conformidade regulatória. Os países da América Latina têm uma regulamentação bastante fragmentada, cada um exigindo licenças e processos específicos. A maior parte do dinheiro será gasta na manutenção de relações legais e governamentais.
O produto GemStone também merece atenção. É um ativo tokenizado de grau de investimento, o que significa que uma agência de classificação de risco participará na avaliação, e o produto terá retorno fixo e data de vencimento. Essa estrutura é bastante amigável para investidores tradicionais — diferente dos pools de liquidez de DeFi, que oferecem rendimentos flutuantes e apresentam riscos difíceis de quantificar. Produtos estruturados assim tendem a atrair mais fundos institucionais, especialmente fundos que querem investir em mercados emergentes, mas acham os canais tradicionais complicados demais.
De uma perspectiva mais ampla, essa rodada de financiamento indica que o conceito de RWA saiu da fase de especulação e está começando a se concretizar. Na América Latina, Sudeste Asiático e África, as infraestruturas financeiras tradicionais ainda são fracas, o que dá às aplicações de blockchain uma oportunidade de avançar rapidamente. Se esse projeto conseguir implementar seu modelo no Brasil, provavelmente poderá ser replicado no México, Argentina e Chile rapidamente. Essa é a verdadeira potencialidade do blockchain em mercados emergentes.
Por outro lado, os riscos também não podem ser ignorados. A maior armadilha da tokenização de crédito é a qualidade dos ativos subjacentes. Se a inadimplência de cartões de crédito aumentar, o valor total dos tokens pode despencar. Além disso, a economia brasileira é bastante volátil, e há riscos políticos envolvidos. Instituições que investem nesse tipo de ativo precisam ter planos sólidos de gestão de liquidez. Além disso, fluxos de capital transfronteiriços podem desencadear problemas de controle cambial. Esses são riscos potenciais que devem ser considerados com antecedência.